O investimento em programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola 2.0, lançado oficialmente pelo governo Lula na segunda-feira (4), é visto como uma medida que demonstra a atenção do governo aos problemas da população, segundo o geógrafo Kauê Lopes dos Santos, da Unicamp. No entanto, ele alerta que tais iniciativas podem criar uma cultura de renegociação que não aborda as causas estruturais do endividamento no Brasil.
Kauê Lopes dos Santos, autor do livro Parcelado, destaca que o parcelamento de dívidas se tornou uma prática comum na vida das famílias brasileiras, afetando até mesmo a compra de alimentos e roupas. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) revelam que 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas em março, um recorde histórico.
O Desenrola 2.0 oferece condições facilitadas de pagamento e descontos para pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos, mas Lopes dos Santos adverte que essas políticas têm um impacto de curto e médio prazo e podem perpetuar um ciclo de consumo irresponsável.
O geógrafo observa que a cultura de consumo parcelado gera um comprometimento crescente do orçamento familiar, levando as pessoas a recorrerem a novos créditos para cobrir dívidas anteriores, especialmente em um cenário onde as apostas virtuais têm se tornado um problema crescente.
Ele conclui que, apesar de iniciativas como o Desenrola serem positivas a curto prazo, elas não resolvem os problemas estruturais do endividamento e podem até agravar a situação no futuro.
