Na linguagem das redes sociais, ter ‘aura’ significa possuir um tipo de magnetismo difícil de explicar, englobando presença, confiança, estilo e mistério. Essa capacidade de ser interessante sem parecer empenhado em alcançá-la é uma obsessão social que remonta a séculos, muito antes do surgimento do TikTok.
O conceito de ‘cultivar aura’ refere-se a ações que aumentam esse capital invisível, como resolver situações constrangedoras sem hesitar, enquanto tropeçar ou esforçar-se demais pode resultar em uma falência simbólica.
O Dicionário Cambridge já inclui ‘cultivar aura’ como a prática de agir de forma a projetar uma personalidade atraente ou interessante. A internet criou até um sistema de contabilidade imaginário para isso: ‘+1.000 pontos de aura’, ‘-5.000’, ‘aura infinita’. Essa brincadeira reflete uma compreensão comum sobre o que está sendo julgado.
Historicamente, diversas palavras como honra, graça e carisma têm sido utilizadas para descrever a mesma obsessão: projetar algo que os outros reconheçam como especial. O TikTok apenas atualizou o vocabulário.
Se o TikTok existisse no século 17, Luís 14 teria compreendido perfeitamente sua lógica. Em Versalhes, atos cotidianos como vestir-se e comer eram transformados em cerimônias que comunicavam posição social. O rei cultivava sua aura em escala estatal, utilizando o palácio, as roupas e o protocolo para moldar sua figura excepcional.
George ‘Beau’ Brummell, um dândi do século 19, também exemplificou essa busca por aura, transformando seu estilo e comportamento em uma fonte de influência social. Ele demonstrou que quanto mais óbvio o esforço para parecer interessante, menos interessante a pessoa se torna.
As atuais ‘batalhas de aura’ se assemelham a competições de dança, onde não basta ser bom; é preciso dominar a cena. Esses confrontos revelam que a aura depende do reconhecimento dos outros.
O sociólogo Pierre Bourdieu explicaria que nossos gostos funcionam como formas de classificação social e que a aura é uma forma de capital simbólico, conferindo prestígio e legitimidade. Mesmo a aparência casual nas redes sociais pode exigir um considerável trabalho de preparação.
Embora o termo ‘cultivar aura’ possa desaparecer, a prática de buscar presença e carisma continuará a existir, agora com um nome e uma pontuação atribuída a ela.


