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Os carnavais centenários que sobreviveram à escravidão, ditaduras e pandemias

O Brasil ainda era um império quando o bloco Zé Pereira dos Lacaios foi fundado em 1867 na cidade de Ouro Preto (MG), sendo considerado o mais antigo em atividade no país. No Rio de Janeiro, o Cordão da Bola Preta, que testemunhou o fim da Primeira Guerra Mundial e o início da gripe espanhola em 1918, é o bloco mais antigo da cidade.

Subindo até o agreste pernambucano, o Carnaval do Papangu, em Bezerros, reinventou a brincadeira com máscaras ao longo de 140 anos, destacando-se como o maior evento do interior do estado. Essas três manifestações culturais e carnavalescas sobreviveram aos períodos mais marcantes da história do Brasil nos últimos 100 anos, desde o fim da escravidão, passando pelas ditaduras da Era Vargas e Militar, até a pandemia de Covid-19.

Em 2026, continuam desfilando alegria e tradição pelas ruas. O Zé Pereira dos Lacaios sai no sábado pelas ladeiras históricas de Ouro Preto, com seus bonecos gigantes, fraques, cartolas e lanternas, ao som marcante dos clarins e bumbos. No centro do Rio de Janeiro, o Cordão da Bola Preta manteve a tradição de abrir o sábado de carnaval pela manhã, levando milhares de foliões às ruas e emocionando a rainha do bloco, Paolla Oliveira.

Já em Bezerros, os papangus mascarados ocupam o centro da cidade no domingo e na segunda de carnaval. Os papangus de Bezerros são reconhecidos como patrimônio cultural imaterial de Pernambuco, baseando-se no anonimato, improviso e fantasia. O principal elemento são as máscaras coloridas, que cumprem um papel estético e simbólico, permitindo que os foliões suspendam temporariamente sua identidade social.

O carnaval de Bezerros ganhou visibilidade turística, mas o núcleo simbólico da festa permanece na figura do mascarado anônimo que ocupa o espaço público durante os dias de folia. O Cordão da Bola Preta, surgido na região central do Rio de Janeiro, adotou um modelo aberto e popular, consolidando-se como símbolo do carnaval tradicional de rua, mesmo enfrentando períodos de repressão e controle das manifestações populares.

O Zé Pereira dos Lacaios, por sua vez, surgiu como uma resposta satírica a outro grupo carnavalesco da época, e mantém suas tradições ao longo de quase 160 anos, adaptando-se a diferentes contextos históricos.

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