O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) estava agendado para se reunir nesta quarta-feira (8) com o objetivo de anunciar um aumento na mistura de etanol anidro na gasolina, passando de 30% para 32%. Contudo, o Ministério de Minas e Energia adiou a reunião e ainda não divulgou uma nova data.
A proposta de aumento da mistura de etanol na gasolina é um tema debatido por integrantes do governo nos últimos meses. Especialistas alertam que essa mudança pode aumentar o risco de desgaste em motores mais antigos ou aqueles que não estão calibrados para suportar essa nova proporção.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) já havia solicitado a realização de estudos adicionais antes da implementação da nova medida. Engenheiros destacam que a compatibilidade dos materiais dos veículos é um dos principais desafios, especialmente para modelos importados ou mais antigos, que foram projetados para funcionar apenas com gasolina e com teores menores de etanol.
O etanol que será adicionado à gasolina é do tipo anidro, que, apesar de passar por um processo de desidratação, tem a capacidade de absorver água do ambiente, o que pode afetar componentes metálicos do motor não projetados para essa condição. Além disso, a combinação de etanol e água aumenta a condutividade elétrica, favorecendo a corrosão eletroquímica.
A lista de componentes que precisam estar preparados para a nova concentração de etanol inclui o tanque, boia, bomba de combustível, linhas de combustível, bico injetor, câmara de combustão, pistões e vedações. Embora alguns desses componentes possam suportar a nova mistura, especialistas recomendam testes detalhados para confirmar a resistência.
Rogério Gonçalves, engenheiro e diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), explicou que as principais avarias podem incluir corrosão ou desgaste nos componentes do sistema de injeção, o que pode resultar em falhas de funcionamento, aumento das emissões e até danos totais, especialmente na bomba e injetores.
Gonçalves também observou que veículos mais antigos não foram projetados para suportar um percentual mais elevado de etanol, o que os torna mais suscetíveis a problemas. Além disso, o consumo pode aumentar tanto em modelos flex quanto em veículos movidos exclusivamente a gasolina, devido ao menor poder calorífico do etanol em relação à gasolina.
O poder calorífico do etanol hidratado é de cerca de 6.300 quilocalorias por quilograma, enquanto o da gasolina A é de aproximadamente 10.400 quilocalorias por quilograma. Estimar o impacto no consumo é complicado, pois diversos fatores influenciam o rendimento do veículo no dia a dia.
Profissionais do mercado de manutenção alertam que componentes como borrachas e mangueiras podem ressecar e apresentar vazamentos com a nova mistura. Fábio Rhoden, sócio proprietário da oficina Flacht Motorsport & Classic Center, ressaltou que a bomba de combustível e os bicos injetores podem oxidar ou travar devido à corrosão acelerada provocada pelo etanol.
A troca das velas de ignição pode ocorrer antes do previsto, uma vez que o etanol pode desprender sujeira acumulada no fundo do tanque e aumentar a carga sobre o sistema de ignição. Isso se deve ao fato de que o etanol exige maior volume de combustível para atingir a mistura ideal, podendo resultar em falhas de combustão.
A Anfavea defende a importância de realizar testes rigorosos antes da adoção de qualquer aumento na mistura de etanol. Igor Calvet, presidente da entidade, afirmou que a indústria automotiva já produz veículos compatíveis com biocombustíveis, mas enfatizou que um cronograma de testes é essencial para garantir a segurança dos motores e a calibração adequada dos sensores.


